A decepção internacional com Lula
Carlos Alberto Montaner*
O ESTADO DE SÃO PAULO - 12/03/2010
Para Luiz Inácio Lula da Silva, os presos políticos cubanos são delinquentes
como os piores criminosos encarcerados nas prisões do Brasil. Lula adotou,
cruelmente, o ponto de vista de seu amigo Fidel Castro. Para ele, pedir
eleições democráticas, emprestar livros proibidos e escrever em jornais
estrangeiros - os "delitos" cometidos pelos 75 dissidentes presos em 2003,
condenados a até 28 anos - equivale a matar, roubar ou sequestrar. Para Lula,
Oscar Elías Biscet, um médico negro sentenciado a 25 anos por defender os
direitos humanos e se opor ao aborto, é apenas um criminoso empedernido.
Dentro de seu curioso código moral, é compreensível a morte do preso político
Orlando Zapata ou a possível morte de Guillermo Fariñas, em greve de fome para
pedir a libertação de 26 presos políticos doentes.
Os democratas cubanos não são os únicos decepcionados com o brasileiro. Na
última etapa de seu governo, Lula está demolindo a boa imagem que desfrutou no
começo. Recordo, há cerca de três anos, uma conversa que tive no Panamá com
Jeb Bush, ex-governador da Flórida. Ele me disse que seu irmão George, então
presidente dos EUA, tinha uma relação magnífica com Lula e estava convencido
de que ele era um aliado leal. Isso me pareceu uma ingenuidade, mas não
comentei a questão.
Alguns dias atrás, um ex-embaixador americano, que prefere o anonimato, me
disse exatamente o contrário: "Todos nos equivocamos com Lula. Ele é um
inimigo contumaz do Ocidente e, muito especialmente, dos EUA, embora trate de
dissimulá-lo". E, em seguida, com certa indignação, criticou a cumplicidade do
Brasil com o Irã no tema das sanções pelo desenvolvimento de armas nucleares,
o apoio permanente a Hugo Chávez e a irresponsabilidade com que manejou a
crise de Honduras ao conceder asilo a Manuel Zelaya na embaixada em
Tegucigalpa, violando as regras da diplomacia internacional.
Na realidade, o comportamento de Lula não é surpreendente. Em 1990, quando o
Muro de Berlim foi derrubado, o líder do Partido dos Trabalhadores apressou-se
em criar o Fórum de São Paulo com Fidel Castro para coordenar a colaboração
entre as forças violentas e antidemocráticas da América Latina. Ali estavam as
guerrilhas das Farc e do ELN na Colômbia, partidos comunistas de outros tantos
países, a FSLN da Nicarágua e o FMLN de El Salvador. Enquanto o mundo livre
celebrava o desaparecimento da União Soviética e das ditaduras comunistas no
Leste Europeu, Lula e Fidel recolhiam os escombros do marxismo violento para
tratar de manter vigente o discurso político que conduziu a esse pesadelo, e
estabeleciam uma cooperação internacional que substituísse a desvanecida
liderança soviética na região.
No Brasil, sujeito a uma realidade política que não pôde modificar, Lula
comporta-se como um democrata moderno e não se afastou substancialmente das
diretrizes econômicas traçadas por Fernando Henrique Cardoso, mas no terreno
internacional, onde afloram suas verdadeiras inclinações, sua conduta é a de
um revolucionário terceiro-mundista dos anos 60.
De onde vem essa militância radical? A hipótese de um presidente
latino-americano que o conhece bem, também decepcionado, aponta para sua
ignorância: "Esse homem é de uma penosa fragilidade intelectual. Continua
sendo um sindicalista preso à superstição da luta de classes. Não entende
nenhum assunto complexo, carece de capacidade de fixar a atenção, tem lacunas
culturais terríveis e por isso aceita a análise dos marxistas radicais que lhe
explicaram a realidade como um combate entre bons e maus." Sua frase final,
dita com tristeza, foi lapidar: "Parecia que Lula, com sua simpatia e pelo bom
momento que seu país atravessa, converteria o Brasil na grande potência
latino-americana. Falso. Ele destruiu essa possibilidade ao se alinhar com os
Castro, Chávez e Ahmadinejad. Nenhum país sério confia mais no Brasil". Muito
lamentável
*Carlos Alberto Montaner é escritor cubano
Marzo 12, 2010
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